Descrição
- INTRODUÇÃO
A extensão universitária constitui uma dimensão fundamental da formação acadêmica, uma vez que possibilita a aproximação entre o conhecimento produzido na universidade e as necessidades concretas da sociedade. Compreendida como uma prática dialógica, a extensão favorece a articulação entre ensino, pesquisa e realidade social, contribuindo para a formação de profissionais críticos, éticos e comprometidos com a transformação social. Nessa perspectiva, as atividades extensionistas devem ser incentivadas desde o início da graduação, de modo que a formação profissional ultrapasse a dimensão técnico-científica e incorpore a compreensão das desigualdades sociais e das diferentes realidades vivenciadas pela população (MORAES; MARTINS; LIMA, 2025).
Em consonância com essa perspectiva, a Política Nacional de Extensão Universitária destaca a importância de desenvolver ações articuladas às demandas sociais, estimulando relações interdisciplinares e interprofissionais e ampliando o acesso ao conhecimento. Assim, a extensão não deve se restringir à transmissão unilateral de informações, mas constituir um espaço de troca de saberes entre a comunidade acadêmica e os diferentes setores da sociedade, permitindo que as experiências vivenciadas no território também contribuam para a construção do conhecimento científico (FORPROEX, 2012).
Nesse contexto, a atuação extensionista junto às mulheres privadas de liberdade assume especial relevância diante das vulnerabilidades sociais e dos desafios relacionados à garantia de direitos, à assistência à saúde e à reinserção social. A Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC), criada em 1972, em São José dos Campos, São Paulo, propõe um modelo de custódia fundamentado na recuperação da pessoa privada de liberdade, na valorização humana e na participação da comunidade. Entre os elementos que estruturam o método APAC, destacam-se a assistência à saúde, o trabalho, a participação familiar, a espiritualidade e o envolvimento comunitário, compreendidos como componentes importantes do processo de recuperação e reintegração social (FERREIRA; OTTOBONI, 2016).
A aproximação entre a universidade e esse contexto institucional permite desenvolver ações que dialoguem com as necessidades das recuperandas, valorizando suas experiências e contribuindo para a promoção da saúde e do bem-estar. Além disso, possibilita aos estudantes compreender os determinantes sociais que atravessam o processo saúde-doença, reconhecer os efeitos do estigma e refletir sobre os desafios da garantia de uma assistência humanizada às pessoas privadas de liberdade. Dessa forma, a articulação entre pesquisa e extensão torna-se especialmente relevante, pois permite associar a produção de conhecimento sobre as condições de vida e saúde dessa população à construção de atividades educativas e estratégias de cuidado coerentes com suas necessidades.
Diante disso, o presente relato de experiência tem como objetivo refletir e descrever sobre as vivências desenvolvidas no contexto do projeto de extensão com interface à pesquisa junto às mulheres privadas de liberdade (MPL) custodiadas em uma APAC de Governador Valadares, Minas Gerais. Destacando as contribuições dessas experiências para a compreensão das vulnerabilidades sociais, a promoção da saúde, a valorização humana e a formação acadêmica. Busca-se, ainda, evidenciar como o contato com as MPL e com a equipe institucional favoreceu a construção de um olhar mais crítico e humanizado sobre o cuidado, reforçando a importância de iniciativas universitárias comprometidas com o diálogo, a dignidade humana e a transformação social.
2.0 DESENVOLVIMENTO
2.1 Primeiro momento: a pesquisa como instrumento de compreensão da realidade
A inserção no campo de pesquisa na Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC), em Governador Valadares, Minas Gerais, proporcionou uma experiência que ultrapassou a coleta de dados e possibilitou reflexões sobre as condições de vida, as vulnerabilidades sociais e as necessidades de saúde das mulheres privadas de liberdade. As atividades de pesquisa envolveram abordagens metodológicas distintas, incluindo entrevistas estruturadas, entrevistas semiestruturadas e observação participante, permitindo compreender diferentes dimensões da realidade vivenciada pelas recuperandas.
No estudo quantitativo, foram realizadas entrevistas estruturadas com 70 MPL, com o objetivo de caracterizar seus perfis sociodemográficos, socioeconômicos, familiares e religiosos. A coleta ocorreu em dois dias, inicialmente com mulheres do regime fechado e, posteriormente, com participantes dos regimes fechado e semiaberto. Durante as abordagens, foi possível perceber diferenças no perfil das participantes, especialmente em relação à idade, ao número de filhos e à reincidência. Também foram observadas dificuldades na compreensão de determinados conceitos presentes no questionário, como plano de saúde, identidade de gênero e orientação sexual. Enquanto as participantes mais jovens demonstravam, em geral, maior familiaridade com os termos relacionados à identidade de gênero e à orientação sexual, o conceito de plano de saúde gerava dúvidas entre mulheres de diferentes faixas etárias. Diante dessas situações, tornou-se evidente a importância de adaptar a comunicação às características de cada participante, garantindo que a coleta de dados ocorresse de maneira compreensível e respeitosa.
No início das entrevistas, algumas mulheres demonstravam aflição, timidez e constrangimento diante das perguntas. Entretanto, à medida que a conversa avançava, muitas se mostraram mais confortáveis. Uma estratégia utilizada para tornar a abordagem mais leve foi recorrer ao humor, apresentando a entrevista de maneira descontraída. Essa experiência evidenciou que, mesmo em uma atividade orientada por objetivos científicos, a construção de um ambiente acolhedor é fundamental para favorecer o diálogo e a participação.
Os resultados do estudo quantitativo evidenciaram importantes vulnerabilidades sociais. Entre as 70 participantes, 57,14% eram solteiras, 91,43% não possuíam plano de saúde e 40% apresentavam ensino fundamental incompleto. Além disso, 58,57% se autodeclararam pardas, 87,14% tinham filhos e 35,71% apresentavam histórico de reincidência. Destacou-se, ainda, a ausência de renda após o cárcere relatada por 80% das participantes. No que se refere à religiosidade, 95,71% relataram presença da fé antes e após o encarceramento, observando-se aumento proporcional da religião evangélica e redução da religião católica. Esses achados apontam para a necessidade de estratégias de cuidado que considerem não apenas as demandas de saúde, mas também as condições socioeconômicas, os vínculos familiares, as possibilidades de reinserção social e as dimensões subjetivas e espirituais dessa população.
Paralelamente, a pesquisa qualitativa buscou compreender as experiências relacionadas à segurança no uso de medicamentos entre mulheres privadas de liberdade que vivenciaram tanto o sistema prisional tradicional quanto a APAC. O estudo etnográfico, desenvolvido entre abril de 2023 e maio de 2025, contou com 11 entrevistas semiestruturadas e observação participante, com registros em diário de campo e gravações de áudio posteriormente transcritas, codificadas e interpretadas.
As narrativas evidenciaram diferenças importantes entre os modelos de custódia. No sistema prisional tradicional, a entrega semanal de medicamentos favorecia situações de uso excessivo de psicotrópicos diante do sofrimento associado ao encarceramento, além de possibilitar o comércio informal de medicamentos dentro das celas. Na APAC, a administração supervisionada representava uma estratégia para reduzir o uso abusivo e as trocas informais. Entretanto, também foram identificadas fragilidades, como a perda de rastreabilidade decorrente da fragmentação das embalagens, a necessidade de capacitação dos responsáveis pela administração supervisionada e as dificuldades logísticas para garantir a continuidade do tratamento. A dependência financeira dos familiares, as falhas na distribuição interna, as dificuldades de acesso aos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) e o desabastecimento de medicamentos constituíam barreiras adicionais à assistência.
A vivência no campo também revelou aspectos que os números, isoladamente, não seriam capazes de expressar. Durante as entrevistas, algumas participantes demonstravam constrangimento ao abordar questões relacionadas à orientação sexual, especialmente ao relatarem experiências homoafetivas vivenciadas durante a passagem pelo sistema prisional tradicional. Também foi possível perceber situações em que o estado civil formal não correspondia à realidade dos vínculos afetivos, revelando a complexidade das relações familiares e conjugais nesse contexto.
Em uma das entrevistas qualitativas, uma participante compartilhou sentimentos intensos de culpa e dificuldades relacionadas à própria autoimagem. Inicialmente, sua postura poderia ser interpretada como vaidade, mas, ao aprofundar a conversa, compreendi que a relação com o espelho era marcada por sofrimento e distanciamento da própria identidade. Ao final, quando compartilhou aspectos delicados de sua história, fui confrontada com sentimentos contraditórios: o desconforto diante de informações difíceis e, simultaneamente, a percepção de que era possível escutar e compreender aquela mulher sem reduzi-la ao crime cometido.
Essa experiência suscitou questionamentos sobre os preconceitos socialmente construídos e sobre a maneira como o estigma pode interferir nas relações de cuidado. Percebi que a pesquisa não se restringia à obtenção de informações, mas exigia escuta, responsabilidade ética e disposição para reconhecer a complexidade das trajetórias individuais. As entrevistas, portanto, contribuíram tanto para a produção de conhecimento científico quanto para a reflexão crítica sobre os modos de organização da assistência à saúde no contexto prisional.
2.2 Segundo momento: a extensão como encontro, acolhimento e transformação
A experiência na APAC também possibilitou compreender a extensão universitária como um espaço de aproximação entre a universidade e a comunidade, no qual o conhecimento acadêmico pode dialogar com as necessidades concretas das pessoas e dos serviços. Ao chegar à instituição, fomos recebidas com receptividade e demonstrações de afeto por parte da equipe e das recuperandas. A estrutura física, a organização dos espaços e a presença de frases que buscavam reforçar uma perspectiva humanizada da custódia contribuíram para uma percepção inicial distinta daquela habitualmente associada ao sistema prisional tradicional.
Durante as atividades, os gestos de acolhimento também assumiram um significado especial. Ao receber algumas participantes com abraços, percebi que esse contato, embora simples e espontâneo, era retribuído com uma intensidade que me fez refletir sobre a importância do afeto e da conexão humana. Posteriormente, surgiu um sentimento de culpa por demonstrar carinho a pessoas que haviam cometido crimes. Essa reação revelou o quanto os julgamentos sociais podem estar internalizados, mesmo quando acreditamos não os reproduzir. Ao refletir sobre essa experiência, compreendi que reconhecer a humanidade de alguém não significa ignorar a gravidade de seus atos, mas admitir que nenhuma trajetória pode ser compreendida apenas a partir de uma infração penal.
As visitas também despertaram sentimentos de indignação diante de relatos de negligência na assistência médica e de experiências desumanizadoras vivenciadas no sistema prisional tradicional. Ao mesmo tempo, surgiu uma sensação de impotência diante da dimensão dos problemas identificados e dos limites da contribuição individual. Mesmo reconhecendo a relevância da escuta e das ações desenvolvidas, era difícil não questionar o quanto ainda precisava ser feito para assegurar condições dignas de saúde e de vida às mulheres privadas de liberdade.
Em uma das atividades extensionistas, foi abordada a importância da saúde mental e o papel da leitura como ferramenta de promoção do bem-estar. Durante a atividade, foi possível perceber que, para muitas recuperandas, os livros representavam mais do que uma forma de entretenimento: constituíam uma possibilidade de afastamento temporário das dificuldades cotidianas, de aproximação com outras realidades e de construção de momentos de acolhimento e reflexão. A leitura aparecia, assim, como um recurso capaz de proporcionar conforto emocional, estimular a imaginação e contribuir para a qualidade de vida dentro do contexto de privação de liberdade. Essa experiência permitiu refletir sobre a importância de valorizar estratégias acessíveis de cuidado em saúde mental, reconhecendo os interesses, as experiências e as formas individuais de enfrentamento do sofrimento. Mais do que incentivar o hábito da leitura, a atividade buscou reconhecer o livro como um instrumento de humanização, capaz de ampliar perspectivas e oferecer novas possibilidades de elaboração das vivências pessoais.
Outro momento significativo da extensão foi a realização de uma atividade educativa sobre secreções vaginais, desenvolvida no formato de roda de conversa. A escolha dessa metodologia favoreceu a participação ativa das recuperandas, criando um ambiente mais acolhedor para o compartilhamento de experiências, a expressão de dúvidas e a discussão de questões relacionadas à saúde íntima. Ao longo da atividade, houve interação expressiva, com perguntas e esclarecimentos que permitiram abordar o tema de maneira acessível, respeitosa e próxima da realidade das participantes.
A experiência evidenciou a importância de oferecer informações confiáveis sobre saúde sexual e reprodutiva, especialmente diante de dúvidas que, por vergonha, desinformação ou receio de julgamento, nem sempre encontram espaço para serem verbalizadas. A roda de conversa também demonstrou que a educação em saúde não deve se limitar à transmissão unilateral de informações, mas precisa reconhecer as participantes como sujeitos ativos na construção do conhecimento. Nesse sentido, o diálogo contribuiu para desmistificar questões relacionadas às secreções vaginais, favorecer o reconhecimento de sinais que merecem avaliação profissional e fortalecer a autonomia das mulheres no cuidado com o próprio corpo.
As duas experiências reforçaram a compreensão de que a extensão universitária pode atuar em diferentes dimensões do cuidado, contemplando tanto o bem-estar emocional quanto a promoção da saúde física. Por meio da leitura, da escuta e do diálogo, foi possível construir espaços de troca que valorizassem as necessidades das recuperandas e reconhecessem seus saberes e suas vivências. Essas atividades também contribuíram para minha formação, ao demonstrar que ações educativas efetivas dependem não apenas do conhecimento técnico, mas da capacidade de estabelecer vínculos, acolher dúvidas sem julgamentos e adaptar a comunicação ao público. Assim, a extensão se consolidou como uma oportunidade de aproximar o conhecimento acadêmico das necessidades concretas da comunidade, promovendo um cuidado mais humanizado, participativo e comprometido com a dignidade das mulheres privadas de liberdade.
3. CONCLUSÕES
A articulação entre a extensão e a pesquisa na APAC de Governador Valadares permitiu compreender a complexidade das experiências de mulheres privadas de liberdade e reconhecer que a produção de conhecimento científico ganha maior significado quando dialoga com as realidades sociais investigadas. Os estudos evidenciaram vulnerabilidades socioeconômicas, desafios relacionados à continuidade e à segurança do tratamento medicamentoso e a relevância das redes de apoio e da religiosidade no contexto do encarceramento.
Além dos resultados acadêmicos, a experiência de campo provocou reflexões sobre o estigma, a culpa, a empatia e os limites da atuação individual diante de problemas estruturais. O contato com as recuperandas demonstrou que a humanização do cuidado depende não apenas de recursos e protocolos, mas também da capacidade de escutar, acolher e reconhecer a singularidade de cada pessoa.
Conclui-se que a integração entre pesquisa e extensão pode contribuir para a formação de profissionais mais críticos, sensíveis às desigualdades e comprometidos com a defesa da dignidade humana. A experiência reforçou a necessidade de fortalecer a articulação entre os serviços de saúde, aprimorar os processos de cuidado e desenvolver ações interdisciplinares que respondam às necessidades das mulheres privadas de liberdade. Acima de tudo, ensinou que compreender uma realidade exige mais do que observá-la: exige disponibilidade para escutar as pessoas que a vivenciam e disposição para transformar o conhecimento produzido em possibilidades concretas de cuidado.
- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FERREIRA, Valdeci Antônio; OTTOBONI, Mário. Método APAC: sistematização de processos. Belo Horizonte: Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, Programa Novos Rumos, 2016.
FÓRUM DE PRÓ-REITORES DE EXTENSÃO DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS BRASILEIRAS (FORPROEX). Política Nacional de Extensão Universitária. Manaus, AM: FORPROEX, 2012.
MORAES, Yukari Yamauchi; MARTINS, Eliana Bolorino Canteiro; LIMA, Maria José de Oliveira. Extensão universitária como práxis emancipatória. Serviço Social & Sociedade, v. 148, n. 1, 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/0101-6628.444.
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